Vencedor do Prêmio Especial do Juri na mostra Un Certain Regard no último Festival de Cannes, o filme francês “Liberté”, do diretor Albert Serra (o mesmo de “A Morte de Luis XIV” (2016) ), nos traz a história de membros libertinos franceses que foram expulsos da corte do Rei Luis XVI se reúnem com um duque e livre pensador alemão numa floresta, onde todos experimentam os mais variados jogos sexuais entre eles.
Serra aproveita bem a geografia da mata, os breus da noite parcamente iluminadas e os sons naturais para impor uma compreensão de Éden para aquela nobreza decadente presente, que subverte todas as relações sexuais possíveis em busca do mero prazer carnal, condenado naquela época na França que os expurgou.
O filme não se propõe em nenhum momento a uma narrativa linear, e se visto fora de uma lógica temporal, poderia facilmente ser deslocado para os dias de hoje, o que dá um peso interessante ao exercício proposto por Serra em mais de duas horas de cenas de relações sexuais, violência e limites superados, independente da hierarquia social entre eles.
Dentro do tratado da libertinagem estabelecido naquele ambiente nos breves diálogos do primeiro ato do filme, e se o espectador se dispuser a embarcar naquele universo sem limites de jogos sexuais, o filme “Liberté” traz situações imagéticas interessantes que também subvertem – ou até mesmo invertem – os papéis daqueles representantes da sociedade entre eles, sendo um filme de arte difícil porém muito bem realizado.