"Heartstopper" (2022), de Alice Oseman
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9.5

Onde: Netflix

 

Se fosse sobre uma história de amor heterossexual, ‘Heartstopper’ provavelmente entraria para a lista de comédia românticas bobinhas da Netflix e passaria despercebida. Mas representatividade importa, e a nova série da Netflix é prova disso. Simples, delicada e divertida, ela conta a história de Charlie, um adolescente de 14 anos que sofre bullying na escola por ser gay e que se apaixona por Nick, o capitão de rugby que vira parceiro dele em uma aula especial.

Adaptação fiel de uma história em quadrinhos de sucesso, o programa retrata majestosamente as angústias de ser adolescente e lidar com a descoberta da sexualidade. Muitos dos arquétipos das personalidades estão lá, em diferentes graus – os nerds intelectualizados, os populares que gostam de humilhar os outros e até a introvertida sarcástica que rouba as cenas no papel da irmã do protagonista.

Mas o seriado foge do típico cenário americano repetido à exaustão, de atletas e líderes de torcida, ao se ambientar na Inglaterra e apresentar o enredo em duas escolas diferentes – uma só para meninos, onde os personagens principais interagem, e uma só para meninas onde 3 personagens secundárias maravilhosas estudam: a menina trans Elle, que acaba de ser transferida de uma escola para a outra ao começar sua transição de gênero, e suas novas melhores amigas Tara e Darcy, que vivem o conflito de terem acabado de sair do armário publicamente no Instagram.

Desde o primeiro episódio, somos transportados para o mundo colegial e envolvidos naquele universo do primeiro frio na barriga, desilusões amorosas, ciúmes de amigos, insegurança, ansiedade, amizade e solidão. Com pequenas animações bem discretas, a série captura de maneira incrivelmente sensível o que é ter 15 anos e casa perfeitamente a linguagem televisiva com o apelo visual dos quadrinhos.

Apesar das inserções das conversas de Instagram, a história principal é quase atemporal, mas felizmente consegue puxar mais para o lado feliz em uma época em que a aceitação já é bem mais comum, sem fugir da realidade ainda presente do preconceito aberto – e que muitas vezes surge da insegurança com a própria imagem ou sexualidade, tão típico da idade, mas que muitas vezes permanece naqueles de mente mais fechada.

O roteiro tem alguns furos e o elenco é um pouco irregular – até mesmo entre os atores jovens, alguns se sobressaem com uma naturalidade muito maior que outros. E a grande surpresa é a presença discreta de Olivia Colman, a atriz vencedora do Oscar e nova queridinha de cinéfilos e de Hollywood, em um papel pequeno, mas maravilhoso.

“Heartstopper” consegue ser tudo que “Com Amor, Victor” não conseguiu – a série inglesa acaba sendo muito mais próxima de “Com Amor, Simon”, a comédia romântica com um personagem central gay que fez sucesso nos cinemas há alguns anos, e que deu origem ao fraquíssimo seriado do Hulu (nos Estados Unidos) e Disney+ (no resto do mundo). Nem as pequenas falhas tiram o brilho de uma série tão deliciosa de se assistir. O recorte é mais romântico que ignora um pouco a puberdade e hormônios em ebulição, o que provavelmente dará margem a novas temporadas. Os 8 episódios passam voando e nos transportam para um mundo romântico e escapista, muitas vezes até ingênuo e podado (é difícil imaginar que adolescentes em plena puberdade seriam tão comportados sexualmente), porém muitas vezes é tudo o que precisamos.