Onde Assistir: Starzplay
8Nota da Hybrido
Votação do leitor 5 Votos
8.1

Baseada no mesmo livro homônimo que a cultuada comédia romântica de 2000, com John Cusack, Joan Cusack e Jack Black, Alta Fidelidade foi produzida e distribuída pela Hulu no começo de 2020, chegando ao Brasil via Starzplay. No streaming, a obra conseguiu a proeza de abraçar os pontos positivos de uma forma bem espirituosa e ainda melhorar alguns dos negativos. Tanto o livro quanto o filme são aclamados por público e crítica mas, 20 anos depois, nosso olhar enxerga os detalhes que fazem as duas obras parecem limitadas e até datadas.

A maior parte da trama ainda se passa nas instalações da Championship Vinyl – agora no Brooklyn. Mas o paraíso dos amantes da boa música deixou de ser monopólio de esnobes homens cis brancos. A proprietária, Rob, é uma afrodescente bissexual vivida por Zoë Kravitz (Californication, Big Little Lies) e, tanta ela quanto seus funcionários Simon e Cherise, respectivamente David H. Holmes (Josie & Jack) e Da’Vine Joy Randolph (Meu Nome é Dolemite) não são tão esnobes, apesar de ainda serem impressionantes enciclopédias musicais. O grupo ainda julga o gosto alheio, mas se diverte mais falando de música livremente do que obsessivamente diminuindo os conhecimentos e preferências de seus interlocutores.

Comparações inevitáveis

Na busca por respostas sobre si mesmo nos relacionamentos passados, enquanto o Rob de Cusack carecia de segurança e ficava feliz em identificar culpados alheios para suas falhas morais (ele chega a parecer aliviado por saber que uma de suas ex foi estuprada e, assim, o rompimento não teria sido por ele ser um “bom moço”, oi?!?!), a Rob de Zoë Kravitz – ainda que banque a hipster com cara de rockstar descolada do Brooklyn – ainda é bastante autocentrada mas busca efetivamente entender e se responsabilizar por suas escolhas e atitudes. Claro que tudo isso permeado pelas normas da playlist perfeita (que um dia foi a famigerada mixtape) e pelas listas Top 5 que os personagens seguem fazendo sobre qualquer assunto que lhes apeteça. Também foram mantidos os pequenos surtos e desabafos quebrando a quarta parede, que também eram uma das marcas registradas do filme de 2000. E, nesses momentos de conflitos, Zoë Kravitz brilha.

O formato de 5 horas (uma única temporada com 10 episódios de aproximadamente 25 minutos) também permitiu que a trama se aprofundasse um pouco mais nos outros dois personagens do trio, Simon e Cherise. Um dos melhores episódios mostra os traumas românticos e a rotina de Simon – gay recém saído do armário, confidente de Rob e grilo falante de Cherise – que tem a oportunidade de elencar seu próprio Top 5 de piores rompimentos. Também Cherise, preta, plus size, criativa e intensa, não demora tanto quanto o Barry de Jack Black para se revelar muito mais profunda do que a primeira impressão que causa com tanta personalidade. Pena que ela não ganhou seu próprio episódio, assim como Simon.

Boas escolhas e modernização da narrativa

De uma forma geral Veronica West e Sarah Kucserka (Ugly Betty, Brothers and Sisters) acertaram ao modernizar a narrativa, inclusive os clichês. Em vez de debateram algo subjetivo como se uma determinada música é boa, os personagens se preocupam mais com a questão sobre como separar a pessoa física, seus crimes e pecados, do artista e sua obra. Em uma passagem, onde Rob encontra um colecionador de vinis extremamente babaca e misógino, parece até que a obra alfineta sua própria fonte, criando um embate entre uma geek apaixonada, versus o macho esnobe protagonista das obras anteriores. A mulher fã do rock’n roll que não precisa mais ser “tutorada” por ninguém.

Mesmo com o notável esforço demonstrado pela protagonista para ser uma pessoa melhor, Alta Fidelidade ainda é sobre a inevitabilidade da nossa atração tóxica pelo amor autodestrutivo. Ou sobre o dilema recorrente das pessoas incríveis que teimam em se deixar diminuir por pessoas pequenas. Talvez isso seja apropriado para um filme e cansativo para o formato de série. O fato é que, de alguma forma, o conjunto todo acaba ficando viciante e é, com certeza, um avanço frente às obras anteriores. Um mix onde a fotografia colorida das ruas do Brooklyn e a impecável trilha sonora (que tem até uma pequena aula sobre Os Mutantes) embalam uma grande aposta na empatia com o público. Afinal quem não quer – bem lá no fundo – remoer o passado ou apenas exagerar no drama e na autopiedade, surtar e gritar de vez em quando?

Atualização: Mesmo aclamada, a Hulu anunciou o cancelamento da série no início do mês de agosto.