Onde ver: Cinemas
8.5Nota da Hybrido
Votação do leitor 2 Votos
9.3

Um ano depois de ser reconhecido pela crítica como um dos grandes novos diretores do gênero de filmes de terror nos EUA com o filme “Hereditário”, Ari Aster lança seu segundo longa, “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite”, que dialoga com o anterior, mas definitivamente não se trata do mesmo gênero.

Aster aqui se debruça numa história onde a protagonista Dani (a jovem e excelente Florence Pugh) se vê sem referências após uma grande tragédia, tendo apenas o elo fragmentado e um tanto distante com seu namorado Christian (Jack Reynor), que se vê obrigado a incluir Dani em sua viagem com amigos de doutorado para o vilarejo natal de um deles na Suécia.

Todo o primeiro arco dramático antes da viagem é meticuloso e intenso em torno do drama pessoal de sua protagonista, que se vê num corner sentimental que a faz aceitar questões discutíveis em nome do elo frágil que ainda permeia seu relacionamento.

A partir da viagem, o diretor faz uma cuidadosa e meticulosa imersão ao universo do vilarejo sueco, com muita atenção aos detalhes escritos, desenhados, falados e não-falados, e todo esse manancial de referências àquela sociedade a ser observada tem seu payback até a conclusão do filme, mesmo que até lá perca alguma densidade em suas subtramas, apostando alto no arco dramático de sua protagonista.

Como em seu filme anterior, Aster compõe sua Dani com muitos conflitos relevantes, e explora bastante o talento dramático de Pugh, assim como tinha feito com a atriz Toni Collette em “Hereditário”, com uma personagem com nuances e questões que me lembraram muito a Rosemary de Mia Farrow em “O Bebê de Rosemary” (1968).

Além disso, o diretor mostra muitos recursos na forma de usar o movimento da câmera para nos suscitar estranhamento, surpresas, questões súbitas ou detalhes sutis e muita amplitude de campo que fazem a diferença para a contextualização daquele povoado e suas ações e reações ao longo da narrativa do filme.

Nas poucas cenas mais fortes de violência, apela para um estilo gore bem visceral que serve perfeitamente de contraponto à imagem vendida sobre o povoado, gentil, escandinavo, branco, com roupas leves e com a luz do solstício jogando também a favor desse contraste imagético, com o reforço da constante presença dos entorpecentes nos rituais e passagens.

Porém, mesmo com todo o detalhamento visual e até mesmo antropológico daquela comunidade (reforçada pela presença de dois personagens que estudam Antropologia no grupo de visitantes), a força a se agarrar em “Midsommar” é a evolução da ausência de auto-estima e da carência afetiva de sua protagonista, e a forma que ela encontra para superar esses problemas dentro do caos da tradição milenar que desafia todas as regras modernas de convivência.

Com fotografia e design de produção deslumbrantes, o grande apuro narrativo de Ari Aster, e apesar do roteiro nem tanto apurado, “Midsommar –  O Mal Não Espera a Noite” tem densidade de um bom drama com toques de folk horror (bastante referenciado no clássico do gênero de 1973, “O Homem de Palha”), e reforça a necessidade de acompanharmos atentamente a futura filmografia deste talentoso diretor.