THE GOOD PLACE -TEMPORADAS 1 A 4 (NETFLIX)
9.5Pontuação geral
Votação do leitor 2 Votos
9.4

O que é ser uma boa pessoa e o que acontece com ela após a morte? Essas são as perguntas que The Good Place tentou responder por quatro anos. Para falar tudo o que eu pretendo sobre esse trabalho fenomenal do Michael Schur, só mesmo cometendo spoilers. Então eu já me desculpo de antemão com aqueles que chegaram aqui procurando motivos para assistir à série. Este review, não é para vocês. Mas fica a recomendação: assistam! E voltem depois que a gente conversa e você pode até nos agradecer. 

A conversa hoje é com quem se empolgou com os quatro anos bem objetivos, narrativas bem desenvolvidas e reviravoltas bem colocadas no decorrer da trama. Ou seja, uma comédia efetivamente bem feita graças a dois elementos fundamentais: elenco e roteiro.

Puro carisma e Diversidade

Michael Rush foi muito feliz na escalação desse elenco. Kristen Bell construiu uma maravilhosa Eleanor Shellstrop, que começa caricatamente detestável, egoísta e um tanto auto sabotadora porém evolui com uma cadência crível até chegar à liderança do grupo. William Jackson Harper incorpora o inteligente, indeciso e extremamente ansioso Chidi Anagonye, um intelectual nigeriano extremamente inteligente e estudioso que serve como ponte da série para a Filosofia. Jameela Jamil está perfeita como Tahani Al-Jamil, uma ressentida socialite filantropa anglo-paquistanesa, cheia de pendências familiares e repleta de amigos famosos. O quarteto “humano” da trama se fecha com Manny Jacinto e seu tolinho Jason Mendoza, um criminoso de origem latina, burro porém ingênuo e adorável que é torcedor fanático do Jacksonville Jaguars. Aos quatro juntam-se ainda os talentosos Ted Danson como Michael, o arquiteto do “Lugar Bom”; Marc Evan Jackson como o Demônio-Chefe Shawn; D’Arcy Carden como Janet, a faz-tudo incrível que ainda por cima detém todo o conhecimento do universo; e Maya Rudolph, A Juíza viciada em séries de TV (quem nunca).

A química do elenco mais diverso da história da televisão (ao menos que me lembro) é imediata e o resultado é uma soma de camadas que rende um puro extrato de carisma que quase escorre na tela. Eleanor é daquelas personagens repletas de falhas de caráter que amamos odiar enquanto Chidi é irritantemente adorável entre sua intelectualidade acessível, sua constante ansiedade e a total falta de traquejo nas escolhas mais simples da vida. Através dos dois é que se constrói a nítida identificação com o público. Por sua vez, Michael surge de uma elegância cômica que esquecemos que um dia existiu em Ted Danson. E é impossível falar de carisma sem citar a Janet, que roubou a cena (todas as cenas) logo no começo da primeira temporada e cresceu a ponto de dar a D’Arcy Carden a oportunidade de construir outras várias Janets no decorrer da série.

Estamos diante de um roteiro perfeito? 

Nada disso seria possível sem um roteiro praticamente impecável. Se existe um roteiro próximo da perfeição, esse roteiro é o de The Good Place. A série se propõe a discutir moral e ética no contexto de vida após a morte e escolhe o fazer numa comédia. Tinha tudo para ser confuso, pretensioso e dar errado. O resultado entretanto é um texto leve, alegre e oportunamente positivo. A série se vale de uma linguagem simples e divertida até mesmo quando Chidi está dando aulas de Filosofia. Com a devida deferência do intelectual que respeita seu objeto de estudo, Chidi dá o recado sem menosprezar a inteligência do espectador. Além de tudo, a comédia tem um tom legitimamente engraçado apresentando um humor ácido e crítico que não poupa a vida terrena na trama ou fora dela (incluindo até outras séries da TV ou filmes idolatrados pelo público).

A série começa focando na adaptação de quatro recém chegados ao paraíso: o “Lugar Bom”, arquitetado de forma a se adequar ao que cada um que ali chega acha que é bom. Aos poucos descobrimos que eles não são tão merecedores assim de tal lugar no paraíso e eis que se iniciam os dilemas éticos e morais de cada um. Depois de conquistar a audiência com as narrativas e conflitos individuais, a série surpreende a todos ainda na primeira temporada com a revelação de que nossos quatro heróis não estão no paraíso e sim no inferno. Em vez da tortura física, o arquiteto Michael queria provar que a tortura psicológica faria mais danos às almas humanas e descobrimos que os recém chegados foram especificamente escolhidos por Michael para tal experimento: passar a eternidade com o que deveria ser uma constante crise de consciência.

O que acontece nas três temporadas seguintes pode se resumir a uma quase histérica sequência de viradas e reviravoltas. Depois que se revela a verdade sobre o “Lugar Bom”, surgem demônios, memórias são apagadas e apagadas e apagadas (por 800 vezes!), os quatro humanos ganham uma segunda-chance na terra onde são ajudados por Michael, atrapalhados pelos demônios e salvos pela Janet que finalmente os envia para um “vazio”. Tudo isso culmina na conclusão de que todos os humanos estavam sendo sistematicamente enviados ao “Lugar Ruim” há séculos. Esse turbilhão de acontecimentos dramáticos se sustentou bem durante quase toda a série graças à inteligência dos diálogos e velocidade das piadas que permearam todo o texto. Talvez a terceira temporada seja o ponto baixo e mais confuso da narrativa (motivo para eu não ter dado nota 10 lá em cima) mas a quarta temporada chegou tão intensa que podemos facilmente esquecer quaisquer defeitos que tenhamos visto até aqui. 

Filosofia: Teoria e Prática

Vários bastiões da filosofia se misturam a astros da cultura pop, seja numa analogia durante as aulas de Eleanor com Chidi ou numa passagem contada por Tahani sobre seus antigos amigos célebres. Durante as quatro temporadas percebemos que, muito além das francas gargalhadas, o intuito de The Good Place sempre foi analisar, entender e nos fazer refletir sobre o que significa ser uma pessoa boa e, assim, especular sobre qual é o seu destino. Todos os conceitos filosóficos apresentados até então pela série, principalmente através de Chidi, fluem para essa reflexão. A própria saga de Chidi é um exemplo: o professor de ética que – por ter acesso a todo o conhecimento – deveria ser um mestre nesse aspecto e acaba não obtendo sucesso quando tenta colocar o que aprendeu na prática. Chidi conhecia todos os conceitos e critérios éticos mas agonizava sempre que precisava tomar alguma decisão, por mais simples que fosse. Fã ardoroso de Immanuel kant, Chidi tenta seguir o Imperativo categórico durante sua vida terrena e acaba se torturando por isso porque tal princípio é oito ou oitenta na questão certo ou errado. 

Ainda na primeira temporada e também envolvendo o Chidi, tivemos o famoso Dilema do Bonde. A sequência é tragicômica pois esse sempre foi o pior pesadelo de Chidi: por conhecer o conceito e por sua terrível fobia de tomar decisões. Mas outros personagens também nos apresentam conceitos filosóficos. Enquanto Eleanor, por exemplo, aproveitava sua segunda chance na Terra, ela realmente esforçava-se para ser uma pessoa melhor mas, num momento de fraqueza, confessa que sentia falta do devido reconhecimento. Mais uma discussão moral levantada pela série: o merecimento ou reconhecimento moral. Platão já falava disso, assim como vários não-filósofos (incluindo-se aqui doutrinas espirituais, karma e afins). 

Do merecimento ao altruísmo, chegamos ao Utilitarismo que (resumindo bastante) conhecemos como “os fins justificam os meios”. Trata-se do agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar, o famoso bem maior. E se mesmo com boas intenções, uma ação provoca algum mal, por este conceito ela é imoral. Esse conceito foi apresentado por Doug Forcett (Michael McKean, na terceira temporada), personagem 100% utilitarista e altruísta. Pelo sistema de pontos vigente, Doug teria vivido a vida perfeita e exemplar mas, por agir assim, ele acaba não aproveitando a própria vida e nem sequer tem a sensação de satisfação por ter feito algo de bom para alguém pois está sempre preocupado com as próximas consequências de seus próximos atos. Uma bola de neve infernal e a subsequente total infelicidade. 

Ser bom e o sentido da vida

Thomas Hobbes, Nicolau Maquiavel, Aristóteles, o contratualismo e até o niilismo, todos tiveram sua vez em The Good Place. E depois de tanto filosofar, chegamos na quarta e última temporada para descobrirmos que ser bom não é realmente o que importa: o mundo moderno está tão complexo que ser bom tornou-se uma meta inalcançável. O grupo elabora assim uma nova proposta para o pós-vida: a vida terrena, com nossos erros e acertos, é apenas um balizador para os testes a serem aplicados no recém criado “Lugar Médio”. Lá iremos confrontar nossas falhas de caráter e refazer os testee até nos tornarmos a melhor versão de nós mesmos, como aconteceu com todo o grupo depois dos 800 experimentos iniciais, e até mesmo com Michael e Janet no decorrer da narrativa. Pode ser que alguns realmente não o consigam mas o importante é que existe nos é dada a chance de real evolução e redenção.

Ao chegar finalmente ao real “Lugar Bom”, em seus dois últimos episódios, a série dá mais uma guinada, desta vez realmente de forma emocionante para fazer a pergunta que todos os filósofos sempre tentaram responder: “qual o sentido da vida?” Ao encerrar a saga, a pergunta pode até não ter sido respondida (se é que ela tem alguma resposta), mas temos a dica de que também a total felicidade é inviável: a plena satisfação implica na falta de um novo propósito. Nossa vida tem sentido pois sabemos que ela tem um fim. É a morte que coloca a vida em perspectiva ao fazer com aproveitemos cada minuto de forma ímpar. E assim também deve ser o pós vida. A eternidade satisfatória e sem propósito acabaria por invalidar todos os esforços pela criação do “Lugar Bom”. É preciso saber que é possível também concluir também esse processo. É preciso um fim. Uma vez satisfeito, se conhecerá a paz. Ou como surpreendentemente descreve o tolinho Jason: sentir uma intensa e inexplicável calmaria. E o fim. Você deixa de ser apenas você e sua alma e passa a fazer parte do todo, do universo.

A forma como a última temporada e os dois últimos episódios concluem toda e qualquer trama aberta durante a série, resolvendo todos os conflitos e fechando todos os ciclos é linda e singela, sem esquecer em nenhum momento da acidez característica de seu humor. Cada destino foi concluído com o esmero que lhe era merecido, desde o inocente Jason, passando pela eficiente Tahani, o seguro Chidi, a madura Eleanor e até mesmo Michael, agora humano (que final!).

The Good Place mostra do início ao fim que é possível fazer comédia com qualquer tema, incluindo “filosofia” e “morte”. Trata-se da série mais inteligente e engraçada lançada nos últimos quatro anos (coincidentemente quatro anos bastante assustadores aqui, fora da ficção). Com The Good Place nós podemos rir de nós mesmos, das nossas falhas e ainda assim refletir sobre o certo e o errado sem o perceber. De quebra, independente da religiosidade de cada um, ainda podemos vislumbrar com leveza e otimismo o fim do caminho.